About my grandfather

O meu pai era uma pessoa humilde. Não digo que fosse de uma família humilde, eram proprietários de terras no norte, mas com famílias grandes a quem dividir o património, cada um tinha de se safar.
Tanto a minha avó como o meu avô tinham nove ou dez irmãos. Uns fizeram fortuna em África, outros emigraram para o Brasil e lá ficaram, a trabalhar no comércio. O meu avô também foi, para S. Paulo. Tenho uma foto dele de " paletó" numa rua que parece quase Nova Iorque e ele de chapéu, muito urbano. Quando partiu, era namorado da minha avó, prima em segundo ou terceiro grau, mas depois esteve uns cinco anos sem lhe escrever... Escrevia às irmãs dele, e elas mostravam-lhe fotos dele a tomar chá na companhia de senhoras modernas. A minha avó e as irmã também eram modernas, apesar de morarem numa aldeia dos arredores do Porto, tinham o cabelo curto à anos 20 e vestidos curtos de cintura descaída. Uma das minhas tias avós era professora primária, a minha avó não, mas foram educadas por preceptoras e tinham o ensino básico da altura. E bordavam e assim.
As terras estavam arrendadas e eram os lucros do vinho, que os sustentavam. Depois o meu avô voltou, com algum dinheiro, abriu uma loja, fizeram uma casa num terreno da família , casaram e logo tiveram dois filhos seguidos, o meu pai e a irmã.

Para o meu pai ir estudar para o liceu no Porto, o meu avô teve de pedir emprestado a uma tia rica.
 E o pobre rapaz foi com dez anos viver num quarto alugado, na casa de uma família desconhecida.
A irmã, apesar de inteligente, não pode ir. Era menina e se calhar também não tinham dinheiro para os dois. O meu pai levava os livros do ano anterior e ela estudava sozinha. Ele ensinava-a nas férias e quando lá ia. Depois ela fazia os exames nacionais como externa e passava, com boas notas ! Penso que ganhou uma bolsa a certa altura. E também, como havia outros primos interessados em estudarem no liceu, uma tia solteira ( a professora ) foi com eles, alugaram um andar para todos. E o meu pai dava explicações . Tanto ele como a irmã, se formaram em Engenharia no Porto.
Estiveram algum tempo sem arranjar empregos, mas depois abriu o LNEC em Lisboa e começou a contratar engenheiros. Ambos tinham boas, excelentes, notas, e entraram. Lá ficaram os avós sem filhos. Mas orgulhosos. Falavam pelo telefone, o meu avô foi dos primeiros a ter um. E um carro. E era correspondente do Primeiro de Janeiro, mandava notícias do interior, que algumas vezes eram publicadas, histórias engraçadas que sucediam. Recebemos o jornal de graça até ele fechar....

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