About my father
O meu pai era uma pessoa humilde em relação ao seu trabalho. Só há pouco a minha mãe me disse que a Igreja de Alvalade, na 1º de Janeiro, foi a primeira obra em que participou. Ele nunca o referiu. Eu adoraria ter dito aos amigos, quando estava na Carcassone " o meu pai fez esta igreja ! " ( nos anos 50 ).
Especializou-se em Fundações depois de ser contratado como engenheiro civil pelo LNEC (o seu primeiro emprego ) e era chamado como especialista a várias obras públicas. Eu e a mãe fomos com ele várias vezes, quando era em Évora ou noutros sítios. Mesmo a Itália e Áustria fomos. Ele olhava o terreno, analisava as amostras de terra que tiravam de perfurações a vários níveis, mandava entregarem no LNEC e executava os cálculos para calcular o tamanho, profundidade, das fundações do prédio, mas com o tempo, dizia logo ali quanto seriam. Sabia muito de Geologia e dizia-me o nome das rochas, quando andávamos de carro, calcário, xisto.... E às vezes andávamos à procura de fósseis, rochas com conchas embutidas. Eu ficava sempre muito surpreendida, mesmo que fosse nos Olivais. Tinha havido ali mar ?
O meu pai escreveu um livro com as tabelas para calcular as fundações. Esse livro, pequeno é um dos best sellers do LNEC, pois é uma espécie de cábula para os estudantes do Técnico, tem lá tudo. Depois começou a trabalhar para empresas particulares depois de sair do emprego (às 17 h ) do Estado. Era consultor da Engil e várias outras empresas. Podia ter ganho muito dinheiro, disse o marido da irmã uma vez, mas era pouco ambicioso e deixava-se enganar facilmente, tinha pouco jeito para negócios. E sim, foi perseguido pelo problema da família dele, o alcoolismo. Ninguém falava nisso na altura, os homens bebiam, as empresas enviavam caixas de whisky pelo Natal, mas ele suportava mal o álcool. Tornava-o deprimido e agressivo. Verbalmente, nas festas familiares, connosco também. Devia " verdades " nuas e cruas a quem o quisesse ou não ouvir. Lembro-me dele discutir muito com a minha irmã sobre política, com a minha mãe quando ela dizia " oh homem, não bebas mais ! " e até eu uma vez levei uma lambada sem saber bem porquê. Eu estava a fazer uma conta de dividir, género não sei quantas dezenas de milhar por não sei quantos milhares, tinha uns oito anos, e já devia estar naquilo há uns dez minutos, quando ele apareceu e me bateu, " ainda não fizeste isso ! ". Eu nem chorei, a minha mãe ralhou-lhe e ele foi-se embora. Provavelmente estava chateado com outra coisa. Ou era mesmo da sua filha mais nova não mostrar queda para a matemática ? Não era má aluna, mas não gostava.
No entanto lembro-me de andar de mãos dadas com ele na rua, de irmos comprar umas sandálias para mim por 650 escudos ( eu achei um dinheirão) e de irmos à Feira do Livro os dois, comprar imensos livros para mim. A minha mãe devia estar indisposta. E fez sempre tudo por mim. Até ao fim. Aos 64 anos. E é por isso que deixei de beber, quando engravidei, de vez. Compreendo-o e perdoo-lhe tudo, só acho que devia saber pedir desculpa. Eu às vezes também perco a paciência, mas peço sempre desculpa, depois. E não bato em ninguém. Até ver.....
Especializou-se em Fundações depois de ser contratado como engenheiro civil pelo LNEC (o seu primeiro emprego ) e era chamado como especialista a várias obras públicas. Eu e a mãe fomos com ele várias vezes, quando era em Évora ou noutros sítios. Mesmo a Itália e Áustria fomos. Ele olhava o terreno, analisava as amostras de terra que tiravam de perfurações a vários níveis, mandava entregarem no LNEC e executava os cálculos para calcular o tamanho, profundidade, das fundações do prédio, mas com o tempo, dizia logo ali quanto seriam. Sabia muito de Geologia e dizia-me o nome das rochas, quando andávamos de carro, calcário, xisto.... E às vezes andávamos à procura de fósseis, rochas com conchas embutidas. Eu ficava sempre muito surpreendida, mesmo que fosse nos Olivais. Tinha havido ali mar ?
O meu pai escreveu um livro com as tabelas para calcular as fundações. Esse livro, pequeno é um dos best sellers do LNEC, pois é uma espécie de cábula para os estudantes do Técnico, tem lá tudo. Depois começou a trabalhar para empresas particulares depois de sair do emprego (às 17 h ) do Estado. Era consultor da Engil e várias outras empresas. Podia ter ganho muito dinheiro, disse o marido da irmã uma vez, mas era pouco ambicioso e deixava-se enganar facilmente, tinha pouco jeito para negócios. E sim, foi perseguido pelo problema da família dele, o alcoolismo. Ninguém falava nisso na altura, os homens bebiam, as empresas enviavam caixas de whisky pelo Natal, mas ele suportava mal o álcool. Tornava-o deprimido e agressivo. Verbalmente, nas festas familiares, connosco também. Devia " verdades " nuas e cruas a quem o quisesse ou não ouvir. Lembro-me dele discutir muito com a minha irmã sobre política, com a minha mãe quando ela dizia " oh homem, não bebas mais ! " e até eu uma vez levei uma lambada sem saber bem porquê. Eu estava a fazer uma conta de dividir, género não sei quantas dezenas de milhar por não sei quantos milhares, tinha uns oito anos, e já devia estar naquilo há uns dez minutos, quando ele apareceu e me bateu, " ainda não fizeste isso ! ". Eu nem chorei, a minha mãe ralhou-lhe e ele foi-se embora. Provavelmente estava chateado com outra coisa. Ou era mesmo da sua filha mais nova não mostrar queda para a matemática ? Não era má aluna, mas não gostava.
No entanto lembro-me de andar de mãos dadas com ele na rua, de irmos comprar umas sandálias para mim por 650 escudos ( eu achei um dinheirão) e de irmos à Feira do Livro os dois, comprar imensos livros para mim. A minha mãe devia estar indisposta. E fez sempre tudo por mim. Até ao fim. Aos 64 anos. E é por isso que deixei de beber, quando engravidei, de vez. Compreendo-o e perdoo-lhe tudo, só acho que devia saber pedir desculpa. Eu às vezes também perco a paciência, mas peço sempre desculpa, depois. E não bato em ninguém. Até ver.....

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