About my daughter
Quando engravidei, fui a pessoa mais feliz do mundo. Já tinha 33 anos, e estava mais que certa que queria um filho. Quando soube que era uma menina ficámos radiantes ( o pai também ), já tinhamos nome e tudo.
A gravidez passei-a sempre alegre, menos nos últimos meses, que me custava deslocar. Mas só aumentei nove quilos. E ela nasceu, de parto normal, peso normal, na maior maternidade de Lisboa. Passei a noite acordada a olhar para ela, a enfermeira deitou-ma ao lado. Era diferente do que eu pensava, mais pequena e vermelhusca, mas com uns olhos tão vivos fixos em mim.
Foi a primeira neta dos dois lados. Do meu, porque tinha dois sobrinhos. Do dele pois era mesmo a primeira neta. E eu vesti-a à menina desde logo, com aqueles olhos azuis e loira, era um amor. Tirei-lhe centenas de fotos, numa altura em que ainda se compravam rolos de 25.
Depois nasceu o irmão e dessa vez passei mal a gravidez. Por um lado, nunca ia ao médico, como a outra fora tão fácil. Mas desta vez eu sentia-me muito cansada, tinha tensão alta e não tomava nada para ela. Fazia as ecografias e estava tudo bem, com o bebé, e a mim não me perguntavam nada. A minha filha felizmente era um amor, eu estava em casa com ela e ela ajudava-me a tirar a roupa da máquina, estendia-ma para eu a por no estendal. Não queria andar no carrinho, por isso usava-o para trazer os sacos do supermercado. Iamos ver os peixinhos e os pássaros à loja de animais por baixo de nós e ao parque infantil, a pé. O pai não queria que eu conduzisse. estavamos muito sozinhas as duas, a minha mãe tinha de apanhar dois autocarros e um comboio para chegar a nossa casa. Viamos os teletubbies, e o pastor com as ovelhas por entre os prédios da urbanização. Uma vez disse-lhe " olha, um mémé " e ela " ah, parece mesmo uma ovelha ! ". Pois, já tinha visto nos Teletubbies... Falava pouco, mas percebia tudo. Pintava em grandes cartazes de papel que eu comprava , fazia play-doh, escrevia numa agenda com uma esferógráfica umas bolitas, que pensava serem letras, como me via fazer.
O irmão nasceu antes de tempo ( só três semanas ) e tive de ficar uma semana na maternidade, pois foi cesariana. Eu olhava-o e não parecia meu. Ela e o pai estavam com gripe, não podiam lá ir. Ela passava o dia na avó, e quando o pai a levava para casa, contou-me que percorria todas as divisões da casa a chamar-me. Levou-me às lágrimas, com essa.... E eu devia estar na fase depressiva pós-parto ( entre o 3º e 5º dias....) . Sei que nessa noite um bebé chorava que se fartava lá na sala e eu nem acordei. A minha vizinha de cama acordou-me e disse que era o meu. Qual meu ? Ah, esse. Dei-lhe de mamar. Para mim, o meu bebé era ela.
Mas depois fomos para casa e ela gostava do " nosso bebé ". Era o " mano ". Muito carinhosa sempre, e ele chorava e eu cansada de tratar dela, que ainda usava fraldas ( tinha 23 meses ) fingia que não ouvia, e ela " o mano tá a choiae " e eu " pois está..." e lá ia buscá-lo. Achava-o muito pesado. Claro que não fui ao médico, o médico era para o bebé. De certeza que estava anémica, a roupa voltou a servir-me logo, devia pesar uns 50 kg. Agora que penso nisso, devo ter tido uma depressão pós parto. Rangia os dentes quando ele chorava e dizia entre dentes " morri e fui para o inferno ". O pai fazia turnos no hospital e de noite não se queria levantar para o atender. Eu limitava-me a ir para a sala e abaná-lo no carrinho, enquanto via televisão.
Mas passados uns três meses ele ficou engraçado, ria-se para a irmã, e tornou-se sossegado. Ela entretinha-se imenso com ele, a mostrar-lhe coisas. Não tinha ciúmes nenhuns. Eu é que sentia que tinha traído a relação especial que tinha com ela, e que agora tinha de me dividir com ele. Que era muito diferente dela.
Ela, eu pegava-lhe ao colo e ela olhava o mundo, desde bebé. Ele, focava-se em mim. Metia a mão nos meus cabelos, mordia-me o queixo, apertava-me o pescoço. Mas logo que começou a gatinhar, seguia-a por todo o lado e brincavam os dois. Eu supervisionava, pois estava em casa, mas ela ensinava-lhe coisas. Começou a andar mais cedo e a falar também. Era mais extrovertido que ela.
Tenho tantas fotos deles os dois, a comerem juntos, na banheira os dois, no parque infantil. Acabou por ser a época mais feliz da minha vida de casada, quando estávamos naquela casa alegre e luminosa, que o meu pai me dera. E o pai estava quase só aos fim de semana, pois era interno e tinha de fazer a especialidade, tinha muito trabalho. Eram meus, e vivíamos uns para os outros. Eu lia muito e via TV, quando eles dormiam a sesta. Tínhamos uma vida sossegada, com algumas incursões a centros comerciais e hipermercados, com os dois dentro do carro das compras....
E passados dez anos divorciei-me, não aguentava mais. Afastarámo-nos demasiado e eu detestava a educação que ele dava aos filhos, em contradição com a minha, calma e natural, tudo a seu tempo.
Mudei de casa e dividimos o tempo com eles. Na pratica, como não voltei a trabalhar senão quando eles estavam na escola ( e eu também, dava aulas), eles passavam mais tempo comigo. Eu ia buscá-los à escola e ficavam comigo até ele os ir buscar para jantar e dormir ( nos dias que dormiam lá ). Primeiro, o meu filho chorava sempre que o pai os vinha buscar. Chorava também ao telefone, nos fins de semana com o pai. Ela não. Ele tinha 8 anos e ela dez. Nós tínhamos um gato, um cão, um rato.... Cada um tinha o seu quarto de paredes coloridas mas preferiam dormir no mesmo quarto, tinha beliches. Outras vezes dormiam os dois comigo.
Os anos passaram e eles mantiveram uma relação especial comigo. O que se passa aqui, não sai para casa do pai. No fundo parece que levam vidas duplas, comigo, mais liberal, com o pai cheia de regras. Por exemplo, aqui, deixo-os estarem nos quartos de portas fechadas. Eles dizem que é para os gatos não entrarem, mas eu sei que é porque querem privacidade. E acho bem, desde que tive o meu próprio quarto, em casa dos meus pais, também estava sempre de porta fechada. E se os meus pais queriam entrar, batiam à porta. Tal como eu fazia na deles.
Na casa do pai, não podem estar de porta fechada. Tem de estar aberta, mesmo de noite. Espero que ao menos feche a dele e não tenham de ouvir os ruídos deles com a madrasta.
Quando chegam a casa do pai, a primeira coisa que fazem, é tomar banho. Desconfio que é para não cheirarem ao meu perfume. Em casa do pai , têm roupas de marca, que os tios e amigos do pai lhes dão. Nunca trazem nada para aqui, pois não as querem levar para a escola. Andam aqui na escola pública ao cimo da minha rua, e a última coisa que querem é serem chamados de betos.... Eu compro-lhes as roupas que eles querem, sem marcas à vista. O meu filho diz que ninguém lhe paga para fazer publicidade....
Nós passamos férias os três, no Algarve, na casa que os meus pais lá têm. Fazêmos praia às horas a que acordamos, vamos para praias diferentes todos os dia, almoçamos no MacDonalds às 5 h da tarde. Jogamos raquetes na água, comemos bolas de Berlim.
Agora estão com o pai . Também no Algarve, mas em Vilamoura, com os tios e avós, em apartamentos alugados. Passam o dia na praia a comer sandes, sempre na mesma praia, em toldos alugados. depois às seis, voltam para casa e ficam na piscina, enquanto os adultos preparam o jantar. Jantam tarde, e os adultos na sala e eles na cozinha. Eles comem nuggets e esparguete à bolonhesa, pois é só o que os primos mais novos gostam de comer. Eu disse-lhes porque não comem a carne e peixe na sala, com os adultos, afinal já têm 15 e 17 anos, mas ela disse que preferem assim, eles demoram muito tempo à mesa. Depois vão ver as telenovelas e o meu filho joga no nintendo, ou lá que é.
Só não gosto de uma coisa. Eu telefono e ela é " sim ", " não ", ao que eu lhe pergunto. " Foram à praia ? ", " Não ", " Foram ao continente ? " , " sim ". Grande seca, ele não os podia deixar com os primos na praia ?
Nem digo nada. Continuo a discordar de tudo o que faz. Mas eles falam comigo como se não quisessem ser ouvidos, lá. Não querem que lá, ele perceba que gostam de mim e têm saudades. Excepto o filho, que de vez em quando me fala com voz de mimo. e eu sinto o coração a derreter e quase sou eu, desta vez a chorar.
Por isso telefono-lhes o menos possível. De dois em dois dias, o máximo. se acomtecer alguma coisa, de certeza saberei. Já eles não é tão certo. Se por acaso cair e perder os sentidos, não são os gatos que chamam o 112. Eram capazes de chegar daqui a três semanas e encontrar-me morta e semi-devorada....
Não sei porquê, duvido que alguém viesse verificar.
A gravidez passei-a sempre alegre, menos nos últimos meses, que me custava deslocar. Mas só aumentei nove quilos. E ela nasceu, de parto normal, peso normal, na maior maternidade de Lisboa. Passei a noite acordada a olhar para ela, a enfermeira deitou-ma ao lado. Era diferente do que eu pensava, mais pequena e vermelhusca, mas com uns olhos tão vivos fixos em mim.
Foi a primeira neta dos dois lados. Do meu, porque tinha dois sobrinhos. Do dele pois era mesmo a primeira neta. E eu vesti-a à menina desde logo, com aqueles olhos azuis e loira, era um amor. Tirei-lhe centenas de fotos, numa altura em que ainda se compravam rolos de 25.
Depois nasceu o irmão e dessa vez passei mal a gravidez. Por um lado, nunca ia ao médico, como a outra fora tão fácil. Mas desta vez eu sentia-me muito cansada, tinha tensão alta e não tomava nada para ela. Fazia as ecografias e estava tudo bem, com o bebé, e a mim não me perguntavam nada. A minha filha felizmente era um amor, eu estava em casa com ela e ela ajudava-me a tirar a roupa da máquina, estendia-ma para eu a por no estendal. Não queria andar no carrinho, por isso usava-o para trazer os sacos do supermercado. Iamos ver os peixinhos e os pássaros à loja de animais por baixo de nós e ao parque infantil, a pé. O pai não queria que eu conduzisse. estavamos muito sozinhas as duas, a minha mãe tinha de apanhar dois autocarros e um comboio para chegar a nossa casa. Viamos os teletubbies, e o pastor com as ovelhas por entre os prédios da urbanização. Uma vez disse-lhe " olha, um mémé " e ela " ah, parece mesmo uma ovelha ! ". Pois, já tinha visto nos Teletubbies... Falava pouco, mas percebia tudo. Pintava em grandes cartazes de papel que eu comprava , fazia play-doh, escrevia numa agenda com uma esferógráfica umas bolitas, que pensava serem letras, como me via fazer.
O irmão nasceu antes de tempo ( só três semanas ) e tive de ficar uma semana na maternidade, pois foi cesariana. Eu olhava-o e não parecia meu. Ela e o pai estavam com gripe, não podiam lá ir. Ela passava o dia na avó, e quando o pai a levava para casa, contou-me que percorria todas as divisões da casa a chamar-me. Levou-me às lágrimas, com essa.... E eu devia estar na fase depressiva pós-parto ( entre o 3º e 5º dias....) . Sei que nessa noite um bebé chorava que se fartava lá na sala e eu nem acordei. A minha vizinha de cama acordou-me e disse que era o meu. Qual meu ? Ah, esse. Dei-lhe de mamar. Para mim, o meu bebé era ela.
Mas depois fomos para casa e ela gostava do " nosso bebé ". Era o " mano ". Muito carinhosa sempre, e ele chorava e eu cansada de tratar dela, que ainda usava fraldas ( tinha 23 meses ) fingia que não ouvia, e ela " o mano tá a choiae " e eu " pois está..." e lá ia buscá-lo. Achava-o muito pesado. Claro que não fui ao médico, o médico era para o bebé. De certeza que estava anémica, a roupa voltou a servir-me logo, devia pesar uns 50 kg. Agora que penso nisso, devo ter tido uma depressão pós parto. Rangia os dentes quando ele chorava e dizia entre dentes " morri e fui para o inferno ". O pai fazia turnos no hospital e de noite não se queria levantar para o atender. Eu limitava-me a ir para a sala e abaná-lo no carrinho, enquanto via televisão.
Mas passados uns três meses ele ficou engraçado, ria-se para a irmã, e tornou-se sossegado. Ela entretinha-se imenso com ele, a mostrar-lhe coisas. Não tinha ciúmes nenhuns. Eu é que sentia que tinha traído a relação especial que tinha com ela, e que agora tinha de me dividir com ele. Que era muito diferente dela.
Ela, eu pegava-lhe ao colo e ela olhava o mundo, desde bebé. Ele, focava-se em mim. Metia a mão nos meus cabelos, mordia-me o queixo, apertava-me o pescoço. Mas logo que começou a gatinhar, seguia-a por todo o lado e brincavam os dois. Eu supervisionava, pois estava em casa, mas ela ensinava-lhe coisas. Começou a andar mais cedo e a falar também. Era mais extrovertido que ela.
Tenho tantas fotos deles os dois, a comerem juntos, na banheira os dois, no parque infantil. Acabou por ser a época mais feliz da minha vida de casada, quando estávamos naquela casa alegre e luminosa, que o meu pai me dera. E o pai estava quase só aos fim de semana, pois era interno e tinha de fazer a especialidade, tinha muito trabalho. Eram meus, e vivíamos uns para os outros. Eu lia muito e via TV, quando eles dormiam a sesta. Tínhamos uma vida sossegada, com algumas incursões a centros comerciais e hipermercados, com os dois dentro do carro das compras....
E passados dez anos divorciei-me, não aguentava mais. Afastarámo-nos demasiado e eu detestava a educação que ele dava aos filhos, em contradição com a minha, calma e natural, tudo a seu tempo.
Mudei de casa e dividimos o tempo com eles. Na pratica, como não voltei a trabalhar senão quando eles estavam na escola ( e eu também, dava aulas), eles passavam mais tempo comigo. Eu ia buscá-los à escola e ficavam comigo até ele os ir buscar para jantar e dormir ( nos dias que dormiam lá ). Primeiro, o meu filho chorava sempre que o pai os vinha buscar. Chorava também ao telefone, nos fins de semana com o pai. Ela não. Ele tinha 8 anos e ela dez. Nós tínhamos um gato, um cão, um rato.... Cada um tinha o seu quarto de paredes coloridas mas preferiam dormir no mesmo quarto, tinha beliches. Outras vezes dormiam os dois comigo.
Os anos passaram e eles mantiveram uma relação especial comigo. O que se passa aqui, não sai para casa do pai. No fundo parece que levam vidas duplas, comigo, mais liberal, com o pai cheia de regras. Por exemplo, aqui, deixo-os estarem nos quartos de portas fechadas. Eles dizem que é para os gatos não entrarem, mas eu sei que é porque querem privacidade. E acho bem, desde que tive o meu próprio quarto, em casa dos meus pais, também estava sempre de porta fechada. E se os meus pais queriam entrar, batiam à porta. Tal como eu fazia na deles.
Na casa do pai, não podem estar de porta fechada. Tem de estar aberta, mesmo de noite. Espero que ao menos feche a dele e não tenham de ouvir os ruídos deles com a madrasta.
Quando chegam a casa do pai, a primeira coisa que fazem, é tomar banho. Desconfio que é para não cheirarem ao meu perfume. Em casa do pai , têm roupas de marca, que os tios e amigos do pai lhes dão. Nunca trazem nada para aqui, pois não as querem levar para a escola. Andam aqui na escola pública ao cimo da minha rua, e a última coisa que querem é serem chamados de betos.... Eu compro-lhes as roupas que eles querem, sem marcas à vista. O meu filho diz que ninguém lhe paga para fazer publicidade....
Nós passamos férias os três, no Algarve, na casa que os meus pais lá têm. Fazêmos praia às horas a que acordamos, vamos para praias diferentes todos os dia, almoçamos no MacDonalds às 5 h da tarde. Jogamos raquetes na água, comemos bolas de Berlim.
Agora estão com o pai . Também no Algarve, mas em Vilamoura, com os tios e avós, em apartamentos alugados. Passam o dia na praia a comer sandes, sempre na mesma praia, em toldos alugados. depois às seis, voltam para casa e ficam na piscina, enquanto os adultos preparam o jantar. Jantam tarde, e os adultos na sala e eles na cozinha. Eles comem nuggets e esparguete à bolonhesa, pois é só o que os primos mais novos gostam de comer. Eu disse-lhes porque não comem a carne e peixe na sala, com os adultos, afinal já têm 15 e 17 anos, mas ela disse que preferem assim, eles demoram muito tempo à mesa. Depois vão ver as telenovelas e o meu filho joga no nintendo, ou lá que é.
Só não gosto de uma coisa. Eu telefono e ela é " sim ", " não ", ao que eu lhe pergunto. " Foram à praia ? ", " Não ", " Foram ao continente ? " , " sim ". Grande seca, ele não os podia deixar com os primos na praia ?
Nem digo nada. Continuo a discordar de tudo o que faz. Mas eles falam comigo como se não quisessem ser ouvidos, lá. Não querem que lá, ele perceba que gostam de mim e têm saudades. Excepto o filho, que de vez em quando me fala com voz de mimo. e eu sinto o coração a derreter e quase sou eu, desta vez a chorar.
Por isso telefono-lhes o menos possível. De dois em dois dias, o máximo. se acomtecer alguma coisa, de certeza saberei. Já eles não é tão certo. Se por acaso cair e perder os sentidos, não são os gatos que chamam o 112. Eram capazes de chegar daqui a três semanas e encontrar-me morta e semi-devorada....
Não sei porquê, duvido que alguém viesse verificar.


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